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Olácio Komori em frente ao viveiro de mudas do centro de formação da Apoms

Algo novo prosperando

Texto e fotos de ROBERT WENKEMANN
Olácio Komori em frente ao viveiro de mudas do centro de formação da Apoms

17 de Junho de 2020 · Uma iniciativa de pequenos agricultores no Brasil trabalha de forma agroecológica – e querem instruir outros na mesma linha.

Olácio Komori sentado num pequeno muro explica as suas ideias sobre a agricultura biológica sustentável no Brasil. Atrás dele um viveiro de mudas, em frente aos prédios do novo centro de formação, de dois andares, branco com alicerce azul. Ao redor há campos, muitas árvores, algumas recém plantadas, algumas altas. No alto, um tucano mostra o seu enorme bico vermelho-amarelado sobre um dos solos mais férteis do estado de Mato Grosso do Sul.

Os avós de Olácio Komori estavam entre os primeiros cafeicultores japoneses no Brasil. Naquela época, São Paulo havia concluído acordos com empresas japonesas. Junto com quase 800 outros japoneses, a maioria agricultores, os avós emigraram, desembarcaram no porto de Santos em 1908 e então começaram a plantar café no Brasil. Nos anos quarenta, os imigrantes tiveram a oportunidade de se estabelecer no interior de densa floresta no Mato Grosso do Sul. A cada colono foram dados doze hectares de terra para serem cultivados. Hoje, os nomes japoneses de rua em Dourados, a segunda maior cidade do estado, testemunham o passado. Alemães e holandeses também aproveitaram a oferta de colonizar o oeste. O Brasil deu assim um salto economicamente e por conseguinte, a selva tornou-se terra de cultivo. Os povos indígenas, no entanto, eram frequentemente mortos ou expulsos para darem lugar ao cultivo.

Quando Olácio Komori começou a plantar café na própria cidade de Glória de Dourados, a maior parte das árvores da floresta virgem já havia sido derrubada. Em sua cidade natal conheceu Aristeu Pereira Nantes, o futuro prefeito. Ambos estavam unidos na intenção de trabalhar para a recuperação da terra. Komori dialogou com os agricultores sobre métodos agrícolas sustentáveis e ecológicos, como eles poderiam se organizar e como poderiam trabalhar suas terras de forma lucrativa. Mas sem empréstimos eles não tinham futuro. Assim Komori freqüentou cursos de agroecologia e continuou sua formação em gestão de recursos humanos e cooperativas de crédito.

Sua árvore: O prefeito de Glória de Dourados, Aristeu Pereira Nantes Vídeo: Robert Wenkemann, Tradução: Elen Mary Machado

Hoje, a maioria das frutas e legumes vendidos no centro de abastecimento de Mato Grosso do Sul vem de outros estados. A maioria dos agricultores brasileiros optou pelo cultivo rentável de soja com sementes geneticamente manipuladas e pesticidas, dependendo assim de fornecimentos de pesticidas das empresas químicas. Mas não Komori e os seus camaradas de luta. Neste meio tempo, Komori tornou-se presidente da cooperativa de crédito Cresol e ajudou a construir um complexo sistema ecológico e social. O núcleo é a associação Apoms, que ele fundou em 2000 com mais 13 agricultores para praticar a agricultura familiar agro-ecológica e natural e para promover a comercialização de frutas e legumes.

Hoje o Apoms conta com 170 agricultores de todo o estado. A associação ajuda com informação, inovação e tecnologia para melhorar a produção e aumentar a rentabilidade. Apoia a comercialização no seu próprio centro em Dourados, e dá acesso ao crédito. Crédito este que é outorgado  à associação por Komori, que é diretor administrativo da cooperativa de crédito solidário com foco na agricultura (Cresol) . Caso contrário os pequenos agricultores não conseguiriam obter crédito de um banco convencional.

O Apoms tornou-se uma rede forte. Uma lei local contra a pulverização de pesticidas por via aérea foi ganha com sucesso,  no primeiro município do estado. Também graças ao fato de que,  não só a saúde do povo foi decisiva para isso, mas também a população economicamente importante de bichos-da-seda de um dos membros da associação. No entanto, tendo em conta o desmatamento da mata, as atividades da Apoms e outras iniciativas agrícolas de pequena escala são apenas uma gota no oceano. Segundo o Banco Mundial, mais de 500 mil quilômetros quadrados de floresta tropical desapareceram no Brasil entre 1990 e 2016. Isto corresponde à uma área do tamanho da Espanha.

Um carro aproxima-se. O prefeito de Glória de Dourados, Aristeu Pereira Nantes, desce. Komori e ele se autodenominam crioulos, o que aqui é uma metáfora para pessoas com fortes laços locais. Komori desaparece brevemente e retorna com um galho, um exemplo particular da missão de pesquisa e educação da Apoms. “Esta planta chama-se Jaracatiá”, diz ele. “Havia muitas aqui na região. Os pratos doces podem ser feitos a partir do seu talo, e a fruta também é muito apreciada. A árvore estava quase extinta na região. As receitas feitas da planta, da família da melancia, estão revivendo, porque há esperança de produzi-la novamente como no passado”.

Seu parque: Olácio Komori, Raimundo Tomonari Hossi e Aristeu Pereira Nantes mostram o bioma Vídeo: Robert Wenkemann, Tradução: Elen Mary Machado

O centro de formação destina-se ao desenvolvimento de novas tecnologias, novas formas de organização e gestão de patrimônio na rede Apoms. Um desses projetos é o cultivo do Jaracatiá. Apoms criou mudas para que elas possam ser plantadas na propriedade dos associados. “Não seria lindo ter esta árvore para produzir os frutos que nossos pais e avós tanto apreciaram?”, pergunta Komori.

O prefeito tem uma grande participação no centro de formação para empresas familiares, o único em Mato Grosso do Sul. A sustentabilidade é importante para a sua cidade, mas ninguém quer ser radical aqui. Komori não quer bater de frente com os produtores de soja, mas sim provar na prática que pode funcionar de forma diferente. A cooperação é a prioridade máxima para o budista Komori: Seja feliz e ajude os outros a também serem felizes.

O centro de formação tem uma área de 37 hectares. O terreno é fornecido pelo município, os fundos para a construção dos prédios vieram do governo federal. A cidade apoia o centro com máquinas, limpeza e manutenção. Mais da metade do terreno, 20 hectares, está reservada para um parque natural. O centro de formação têm acomodações para 50 pessoas, cantinas, salas de aula, auditórios, laboratórios e administração. Exatamente agora a unidade de produção de agricultura orgânica, incluindo fertilizantes e estufas, está sendo desenvolvida.

O centro de formação tem parceria com duas universidades e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Eles fornecem aos agricultores novos conhecimentos científicos. A Apoms é também um órgão de certificação orgânica aprovado pelo Ministério da Agricultura.

A plantação de mandioca com cerca de 30 centímetros de altura, trata-se de um banco de germoplasma, o qual é protegido com uma cerca. A mandioca reproduz-se através dos seus ramos, esta característica deve ser melhorada. A variedade, depois de melhorada é então colocada à disposição dos agricultores da Apoms. Essas plantas aqui foram cedidas pela Embrapa. A variedade só foi lançada recentemente. Até chegar a variedade mais recente e mais produtiva com maior teor de amido, se usa só cruzamentos entre espécies, sem cruzamentos transgênicos. Quando a melhor variedade foi encontrada, reproduzida e estudada, ela é então registrada como uma nova variedade.

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o topo do centro de treinamento há uma vista magnífica. Campos, pastagens. Entre grupos de árvores grandes no vale, há clareiras. Era tudo selva. Komori e o prefeito conhecem os danos, eles cresceram aqui. Eles querem restaurar o habitat como um parque natural. A área ainda contém muitas fontes de água características da região. “Este parque natural é importante porque nos permite preservar a estrutura ambiental da região, as florestas, as árvores nativas, a fauna, a flora, as aves”, diz Aristeu Pereira Nantes, mostrando uma árvore. “Este é um Ipê Rosa. Eu mesmo plantei esta muda de árvore. Veja o quanto a árvore cresceu. Já vi muitas fotos de pássaros que o Olácio tirou na floresta. Nós queremos manter e desenvolver isto. ”A vegetação deve se desenvolver novamente como era muito antes da exploração. Lá onde a floresta foi derrubada, se é replantado tudo cuidadosamente. Onde a vegetação nativa ainda está presente, ela deve continuar a se recuperar. “Este é o nosso parque”, diz Komori orgulhosamente. O parque foi aberto oficialmente há algumas semanas atrás. 

Tradução do alemão para o português: Elen Mary Machado

Texto na língua alemã

Texto na língua inglês

Quelle: F.A.Z.

Veröffentlicht: 17.06.2020 10:23 Uhr